a este mote de Mello:
Faz escuro, mas eu canto
porque é preciso plantar.
VOLTAS
A noite vai se afastando
e, co ela, todo o labor.
A moça, de negra cor,
eis, surge, cantarolando.
E ela, assi, vai me encantando
à luz do seu claro olhar,
e a voz canora a cantar.
Andando com curtos passos;
levando à cabeça um pote;
cantando, cantando um mote!
Tão rara nestes espaços...
Tão rara que corta os laços
de quem tenta lhe tocar;
mais vale quem trabalhar.
Assi vai a camponesa
nestas noites de Verão.
Dona do meu coração,
onde encontro mor pureza.
Mas em mim só há vileza,
e ela só quer trabalhar
porque é preciso plantar.
(Vilancete 8, Vilancetes)
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a este mote meu:
Lá se vai a camponesa
co o gado todo a pascer:
sem vê-la eu não sei viver.
VOLTAS
Os verdes campos da lida
são belos, são florescidos;
são todos eles pascidos
por brutos cheios de vida;
são frutos da amada tida,
de Amor, que eu vi renascer:
sem vê-la eu não sei viver.
Cantando se vai a amante
entre os campos e arvoredos.
Ecoa a voz, cantos ledos,
enquanto o sol, seu semblante.
Ai! Este amor delirante
que em mim eu vi florescer:
sem vê-la, não sei viver.
(Vilancete 9, Vilancetes)
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a este mote meu:
Lá se vai a moça negra,
co o triste lenço na mão:
é dona do meu c'ração.
VOLTAS
Vai, à beira de um regato,
chorando na triste fonte;
vai na serra, vai no monte,
chorando seu triste fato.
Vai levando um choro lato
para mais que tem na mão:
ser dona do meu c’ração.
Tem às mãos, também, seu lenço,
que afagam o seu espanto;
não quis, eu, roubar-lhe o manto:
Fortuna tem meu assenso.
E sendo um deus que eu não venço,
Amor não pode dar, não:
ser dona do meu c’ração.
(Vilancete 10, Vilancetes)
Por fim, chegará um dia em que os homens se erguerão dizendo: sou dos homens que pensam ao ar livre, livre.
Teste
segunda-feira, 8 de julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Epigrama 1
Que pode o homem face à Natureza
Se só pode a Natura amedrontar?
Os homens, no infinito, têm firmeza;
No mar, a imensidão; na vida, o mar!
Se só pode a Natura amedrontar?
Os homens, no infinito, têm firmeza;
No mar, a imensidão; na vida, o mar!
domingo, 26 de maio de 2013
Soneto 5
Enquanto tive amor minha alma teve
outra alma para amar e ser amada.
Que tens, Amor, p'ra dar, se grã-espada
cortou o amor que tive, raro e breve?
Não vejo teu semblante, cor da neve;
nem toco tua pele orvalhada.
Olhai como que a vida a mim traz nada,
e a vós Fortuna e Glória ela deve.
Eu temo mais vencer a ser vencido
por uma causa nobre que destoa
um rei que arma e coroa tem vestido.
Mas triste é fim de toda gente boa,
pois todo aquele ser por loa erguido
por belo vem a ter só a coroa.
outra alma para amar e ser amada.
Que tens, Amor, p'ra dar, se grã-espada
cortou o amor que tive, raro e breve?
Não vejo teu semblante, cor da neve;
nem toco tua pele orvalhada.
Olhai como que a vida a mim traz nada,
e a vós Fortuna e Glória ela deve.
Eu temo mais vencer a ser vencido
por uma causa nobre que destoa
um rei que arma e coroa tem vestido.
Mas triste é fim de toda gente boa,
pois todo aquele ser por loa erguido
por belo vem a ter só a coroa.
sábado, 4 de maio de 2013
Elegia I
Acabo de escrever esta elegia onde vejo, em boa medida, uma síntese das minhas leituras de Virgílio (Bucólicas), Horácio (Odes), Gonzaga (Marília de Dirceu) e Goethe (Elegias Romanas). Ademais, muitas experiências pessoais ajudaram-me a idealizar o local do poema.
I
É-me difícil retornar à terra
de onde a vida modesta me foi dada,
pois não se agradarão os meus parentes
em saber que troquei-os pelo mundo.
No entanto, nesta terra há perdurado
pães, vinho, café, frutas e oliveiras,
bem como os animais que nela brincam.
Ó, como tolo eu fui em não ter visto
que assim como perdura o alimento
nesta terra, também aqui perdura
do amor dos brutos ao amor dos homens!
E, se algum lema houver para tal terra,
que seja "liberdade, paz e amor".
terça-feira, 12 de março de 2013
Quarto soneto, após as leituras de Mênon e Górgias
– De ti, ó Sócrates, não cai um
pranto
mesmo quando estás prestes a ser
morto!
Não te causa algum dano ou
desconforto
saberes que teus filhos choram
tanto?
– Dos fatos temo mais causar
espanto,
no povo dessa Atenas, que o
conforto
levou ao meu comportamento
absorto!
E hoje sábio sou, e triste
santo...
– É triste o vosso olhar perante
a gente,
com mais de dous mil anos
concebidos
que nunca realizaram-se na vida!
– Mas como eu poderia ser
contente,
se os homens, na indolência, têm
vividos
as causas da injustiça instituída?
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
vilancete 7
Ah! como me dói saber
Tu deste, Amor, sofrimento
que a senhora é testemunha
da distância que se punha
por sobre todo o alento!
Mal vi o contentamento,
pois que o tempo ele levou,
mas em mim, Amor ficou.
que o tempo amor teu levou,
mas em mim, Amor ficou.
Tu deste, Amor, sofrimento
que a senhora é testemunha
da distância que se punha
por sobre todo o alento!
Mal vi o contentamento,
pois que o tempo ele levou,
mas em mim, Amor ficou.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Outro soneto mais
Os lindos arvoredos desta terra
me dão contentamento a cada dia;
me enchem de prazer e de alegria;
me dão amena calma nesta guerra.
Me fazem homem forte nesta serra;
me trazem no inverno a neve fria;
me tiram da cidade a nostalgia
que o campo num momento vivo
encerra.
Em mim toma uma guerra que
desvela
uns vivos sentimentos, trago à
alma,
pelo amor que vivi todo ao teu
lado.
E cansado de ser tristeza e
calma,
mais uma vez me foge a bela
Estrela,
e aceito, humildemente, o triste fado.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
vilancete 6
Calada a certeza,
a vida é um sonho
num mundo tristonho
Se foi a esperança,
por obra da arte
que outrora foi parte
da minha bonança.
Agora a mudança
me faz tão tristonho...
A vida é um sonho?
O tempo tomou
as forças, o abrigo...
levou um amigo
que triste chorou...
Pois Deus ordenou:
“com vida vos ponho
num mundo tristonho!”
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