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sexta-feira, 23 de abril de 2021

Três epigramas de Calímaco recriados

 IV

Τίμων, οὐ γὰρ ἔτ᾽ ἐσσί, τί τοι, σκότος ἢ φάος, ἐχθρόν;

‘τὸ σκότος: ὑμέων γὰρ πλείονες εἰν Ἀίδῃ.’

 

Timão, que mais odeias: treva ou luz?

“Enquanto o time me envergonha, luz.”

 

VI

τοῦ Σαμίου πόνος εἰμὶ δόμῳ ποτὲ θεῖον ἀοιδὸν

δεξαμένου, κλείω δ᾽ Εὔρυτον, ὅσσ᾽ ἔπαθεν,

καὶ ξανθὴν Ἰόλειαν, Ὁμήρειον δὲ καλεῦμαι

γράμμα: Κρεωφύλῳ, Ζεῦ φίλε, τοῦτο μέγα.

 

Do sâmio que hospedou o aedo divo

sou fruto; canto Êurito, dores magnas,

e a loira Íole. Julgam letra homérica?

Por Zeus, ¡Creófilo!, saíste mega!

 

XIX

Δωδεκέτη τὸν παῖδα πατὴρ ἀπέθηκε Θίλιππος

ἐνθάδε, τὴν πολλὴν ἐλπίδα, Νικοτέλην.

 

Nicóteles, a grande esperança do pai,

Felipe, cedo parte—aos doze. “Pai,

tu, pelas próprias mãos enterras teu Nicóteles;

na mesma cova, há esperança e filho.”

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

O barbeiro de Sevilha, Ato 1: Se o meu nome desejas saber (Ária)

Il barbiere di Siviglia, Atto Primo.
Aria (Canzone): Se il mio nome saper voi bramate
 
Se il mio nome saper voi bramate,
dal mio labbro il mio nome ascoltate.
Io son Lindoro
che fido v’adoro,
che sposa vi bramo,
che a nome vi chiamo,
di voi sempre parlando così,
dall’aurora al tramonto del dì.
 
L’amoroso e sincero Lindoro
non puo’ darvi, mia cara, un tesoro.
Ricco non sono,
ma un core vi dono,
un’anima amante
che fida e costante
per voi sola sospira così
dall’aurora al tramonto del dì.


Tradução minha:

O barbeiro de Sevilha, Ato Primeiro.
Ária: Se o meu nome desejas saber

Se o meu nome desejas saber,
dos meus lábios me escute dizer.
Eu sou Lindoro
que firme te adoro,
que esposa te quero,
teu nome eu espero,
de ti sempre falando ao acaso,
da aurora ao começo do ocaso.

O amoroso e sincero Lindoro
não dará, meu docinho, um tesouro.
Rico não sou,
mas o amor te dou,
umalma de amante
que, firme e constante,
por ti só eu suspiro; no caso,
da aurora ao começo do ocaso.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Cancioneiro, I

O poema abaixo é o primeiro soneto do Cancioneiro, de Petrarca. Minha tradução, mais abaixo, não ficou muito distante da de José Clemente Pozenato, quem traduziu a obra completa (publicado pela Ateliê Editorial numa edição primorosa que inclui as ilustrações de Enio Squeff).


I

Voi ch'ascoltate in rime sparse il suono
di quei sospiri ond'io nudriva 'l core
in sul mio primo giovenile errore
quand'era in parte altr'uom da quel ch'i' sono

del vario stile in ch'io piango e ragiono
fra le vane speranze e 'l van dolore,
ove sia chi per prova intenda amore,
spero trovar pietà, non che perdono.

Ma ben veggio or sí come al popol tutto
favola fui gran tempo, onde sovente
di me medesmo meco mi vergogno:

e del mio vaneggiar vergogna è 'l frutto,
e 'l pentersi, e 'l conoscer chiaramente
che quanto piace al mondo è breve sogno.

I

Vós que escutais o som que esparso rimo
co'os suspiros com que a alma me nutria,
erro que a juventude assaz premia,
outrora eu era outro, ora sublimo,

eu, que em estilo vário choro e exprimo
na vazia esperança e na agonia
de convencer quem por amor ardia,
se não a perdoar-me, o dó estimo.

É bem verdade que do vulgo arguto
fui muito tempo assunto, fartamente,
de modo que de mim eu me envergonho:

e do meu divagar vergonha é o fruto,
e o arrepender-me, e o ver mui claramente
que quanto apraz ao mundo é breve sonho.

A Trágica História de Doutor Fausto, Prólogo, vv.1-7

 The Tragical History of Doctor Faustus

Prologue
Enter Chorus.

CHORUS
Not marching now in fields of Trasimene
Where Mars did mate the Carthaginians,
Nor sporting in the dalliance of love,
In courts of kings where state is overturned,
Nor in the pomp of proud audacious deeds,
Intends our Muse to vaunt her heavenly verse.
Only this, gentleman: we must perform,
[...]


A Trágica História do Doutor Fausto

Prólogo
Entra o Coro.

CORO
Do entorno em Trasimeno não há marchas
(Lá, Marte, aos de Cartago deu vitória);
Tampouco os jogos lúdicos do amor
Nas cortes de tiranos impotentes;
Tampouco a pompa de orgulhosa argúcia;
A Musa quer dar voz a um novo intento.
Somente, meus senhores, mostraremos:
[...]

sábado, 11 de junho de 2016

Tradução de "Visitando o pavilhão sul do Templo Chongzhen", de Yu Xuanji

ORIGINAL:
游崇真观南楼,睹新及第题名处

雲峰滿目放春晴
歷歷銀鉤指下生
自恨羅衣掩詩句
舉頭空羨榜中名

TRADUÇÃO (minha)
Visitando o pavilhão sul do Templo Chongzhen, onde posso ver nomes de candidatos exitosos no exame

Nuvens baixam, contemplo a primavera
Cada traço é escrito em clara prata
Minhas vestes encobrem os meus versos
A mim restou vazia inveja aos nomes

Sou grato à Selina Chen por ter me auxiliado no entendimento do poema.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Tradução do Epigrama XXXVI de Ben Jonson (To the Ghost of Martial)

ORIGINAL:
XXXVI — TO THE GHOST OF MARTIAL
Martial, thou gav'st far nobler epigrams
To thy DOMITIAN, than I can my JAMES :
But in my royal subject I pass thee,
Thou flatter'dst thine, mine cannot flatter'd be.

TRADUÇÃO (minha)
XXXVI — À SOMBRA DE MARCIAL
Epigramas cedeste ao teu Domiciano,
Marcial, que eu jamais logrei brindar a Jaime:
Mas se cortejo podes of'recer ao vosso,
Felicito-te, pois Jaime adular não posso.

A tradução é de 2015, mas modifiquei a solução que havia encontrado para o dístico final. Como o mestrado vem extraindo a criatividade literária que me restava (o mesmo que a escola fez com minha curiosidade quando eu era apenas uma criança de 5 anos), é bom buscar exercitar essa criatividade traduzindo algum poema. Espero fazer novas traduções ao longo deste ano.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

1

Não te iluda, ó menino, com promessa,
que o Amor é categórico – a dispensa!
Lembranças te trarão saudade imensa,
mas quem, do amor, desvela seus mistérios,
                                  recusa a pressa!

Também não queira instar prônubo ânimo
a quem não quer calar a juventude.
Quem, do amor, extrair a plenitude
terá viço maior e a longo prazo
                                  será magnânimo.

Outrora, bom menino, a teimosia
insulou, neste peito, amor descrido.
E, tão logo acabou, fui convencido
de que melhor ficava co as lembranças
                                  que co a apatia.

Agora vá, menino! E, embora manco,
procura, neste amor, rejubilar-te.
Viver de amor requer invento e arte;
e, por Deus!, que aptidão não falte, pois
                                  o Amor é franco!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

As Perseidas

Percorrem rápidas o espaço-tempo
as famosas Perseidas elegantes
Imóveis contemplando o universo
permanecem anônimos humanos

Observando os pombos na cidade

pombos tentam voo
carros nem desviam
um pombo infla o peito
em meio ao infortúnio

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Elegia II

Esta elegia foi inspirada no amor, nos meus estudos e na quinta das Elegias Romanas, de Goethe.

II

Cá, nesta terra, eu sigo o bom preceito:
a Antiguidade dita a experiência,
e o Moderno corrige os velhos erros.
Cá, tão bem me aprofundo na ciência
que contemplo, nas artes que produzo,
e na filosofia que pratico.
Aqui, em meio os bosques e rochedos,
Amor me comunica os seus mistérios.

É cá, neste lugar, que as diferenças
somem: não há Antigo, e nem Moderno;
aqui o espírito é também matéria.
Todos desejam que o Amor se faça
manifesto, entre todos, nesta aldeia.

Não me importa se o Mundo é imperfeito,
mas sim se aprovo nele os bons momentos.
Eu passo o dia junto à minha amiga.
Ficamos contemplando o pôr-do-sol,
e nas horas noturnas nós brincamos,
ousando conhecer o que é oculto
no corpo. Seus mistérios, orientados
pelo Amor, manifestam-se no leito.

A humanidade um dia entenderá
que ao corpo não se deve impor limites.
Eu hoje asserto com clareza grande
que metade do homem que hoje sou
eu devo ao mundo que se encontra aí...
A outra metade eu devo ao meu amor.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Soneto 7

Monarca, a borboleta, vai mudando,
queixando-se da vida passageira...
E em queixumes não vive a vida inteira
o homem a sua morte tateando?

Não vês que a vida é jogo desertando
constantemente a sorte, de maneira
que a Parca deusa, a vida costumeira
bordando, o fado vai nos destinando?

A morte, meus irmãos, é coisa certa,
quer para o valoroso ou parco humano,
ou para a consciência que em nós fez-se.

Portanto, a vida nossa que deserta
é do comum efeito do ano e ano
que passa pela gente como a messe.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Soneto 6

Estava Leda, mansa, um triste dia
banhando suas pernas numa fonte;
o olhar ia sumindo no horizonte
quando avista ave bela – um cisne via!

A jovem Leda o cisne seduzia,
e aos poucos Leda foi curvando a fronte.
A serpe, que matou a Laocoonte,
consumou num prazer que não soía.

Estranho o ato da ave manifesto,
mas era, o cisne, Júpiter fingido,
num outro ato seu mui desonesto.

Das ninfas sedutor já conhecido,
agora tinha Leda num só gesto
e, co ela, filho Pólux dividido.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Vilancetes 8, 9 e 10

a este mote de Mello:
Faz escuro, mas eu canto
porque é preciso plantar.

VOLTAS
A noite vai se afastando
e, co ela, todo o labor.
A moça, de negra cor,
eis, surge, cantarolando.
E ela, assi, vai me encantando
à luz do seu claro olhar,
e a voz canora a cantar.

Andando com curtos passos;
levando à cabeça um pote;
cantando, cantando um mote!
Tão rara nestes espaços...
Tão rara que corta os laços
de quem tenta lhe tocar;
mais vale quem trabalhar.

Assi vai a camponesa
nestas noites de Verão.
Dona do meu coração,
onde encontro mor pureza.
Mas em mim só há vileza,
e ela só quer trabalhar
porque é preciso plantar.
(Vilancete 8, Vilancetes)

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a este mote meu:
Lá se vai a camponesa
co o gado todo a pascer:
sem vê-la eu não sei viver.

VOLTAS
Os verdes campos da lida
são belos, são florescidos;
são todos eles pascidos
por brutos cheios de vida;
são frutos da amada tida,
de Amor, que eu vi renascer:
sem vê-la eu não sei viver.

Cantando se vai a amante
entre os campos e arvoredos.
Ecoa a voz, cantos ledos,
enquanto o sol, seu semblante.
Ai! Este amor delirante
que em mim eu vi florescer:
sem vê-la, não sei viver.
(Vilancete 9, Vilancetes)

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a este mote meu:
Lá se vai a moça negra,
co o triste lenço na mão:
é dona do meu c'ração.

VOLTAS
Vai, à beira de um regato,
chorando na triste fonte;
vai na serra, vai no monte,
chorando seu triste fato.
Vai levando um choro lato
para mais que tem na mão:
ser dona do meu c’ração.

Tem às mãos, também, seu lenço,
que afagam o seu espanto;
não quis, eu, roubar-lhe o manto:
Fortuna tem meu assenso.
E sendo um deus que eu não venço,
Amor não pode dar, não:
ser dona do meu c’ração.
(Vilancete 10, Vilancetes)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Epigrama 1

Que pode o homem face à Natureza
Se só pode a Natura amedrontar?
Os homens, no infinito, têm firmeza;
No mar, a imensidão; na vida, o mar!

domingo, 26 de maio de 2013

Soneto 5

Enquanto tive amor minha alma teve
outra alma para amar e ser amada.
Que tens, Amor, p'ra dar, se grã-espada
cortou o amor que tive, raro e breve?

Não vejo teu semblante, cor da neve;
nem toco tua pele orvalhada.
Olhai como que a vida a mim traz nada,
e a vós Fortuna e Glória ela deve.

Eu temo mais vencer a ser vencido
por uma causa nobre que destoa
um rei que arma e coroa tem vestido.

Mas triste é fim de toda gente boa,
pois todo aquele ser por loa erguido
por belo vem a ter só a coroa.

sábado, 4 de maio de 2013

Elegia I

Acabo de escrever esta elegia onde vejo, em boa medida, uma síntese das minhas leituras de Virgílio (Bucólicas), Horácio (Odes), Gonzaga (Marília de Dirceu) e Goethe (Elegias Romanas). Ademais, muitas experiências pessoais ajudaram-me a idealizar o local do poema.

I

É-me difícil retornar à terra
de onde a vida modesta me foi dada,
pois não se agradarão os meus parentes
em saber que troquei-os pelo mundo.
No entanto, nesta terra há perdurado
pães, vinho, café, frutas e oliveiras,
bem como os animais que nela brincam.
Ó, como tolo eu fui em não ter visto
que assim como perdura o alimento
nesta terra, também aqui perdura
do amor dos brutos ao amor dos homens!
E, se algum lema houver para tal terra,
que seja "liberdade, paz e amor".

terça-feira, 12 de março de 2013

Quarto soneto, após as leituras de Mênon e Górgias


– De ti, ó Sócrates, não cai um pranto
mesmo quando estás prestes a ser morto!
Não te causa algum dano ou desconforto
saberes que teus filhos choram tanto?

– Dos fatos temo mais causar espanto,
no povo dessa Atenas, que o conforto
levou ao meu comportamento absorto!
E hoje sábio sou, e triste santo...

– É triste o vosso olhar perante a gente,
com mais de dous mil anos concebidos
que nunca realizaram-se na vida!

– Mas como eu poderia ser contente,
se os homens, na indolência, têm vividos
as causas da injustiça instituída?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

vilancete 7

Ah! como me dói saber
que o tempo amor teu levou,
mas em mim, Amor ficou.

Tu deste, Amor, sofrimento
que a senhora é testemunha
da distância que se punha
por sobre todo o alento!
Mal vi o contentamento,
pois que o tempo ele levou,
mas em mim, Amor ficou.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Outro soneto mais


Os lindos arvoredos desta terra
me dão contentamento a cada dia;
me enchem de prazer e de alegria;
me dão amena calma nesta guerra.

Me fazem homem forte nesta serra;
me trazem no inverno a neve fria;
me tiram da cidade a nostalgia
que o campo num momento vivo encerra.

Em mim toma uma guerra que desvela
uns vivos sentimentos, trago à alma,
pelo amor que vivi todo ao teu lado.

E cansado de ser tristeza e calma,
mais uma vez me foge a bela Estrela,
e aceito, humildemente, o triste fado.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

vilancete 6


Calada a certeza,
a vida é um sonho
num mundo tristonho

Se foi a esperança,
por obra da arte
que outrora foi parte
da minha bonança.
Agora a mudança
me faz tão tristonho...
A vida é um sonho?

O tempo tomou
as forças, o abrigo...
levou um amigo
que triste chorou...
Pois Deus ordenou:
“com vida vos ponho
num mundo tristonho!”