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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

1

Não te iluda, ó menino, com promessa,
que o Amor é categórico – a dispensa!
Lembranças te trarão saudade imensa,
mas quem, do amor, desvela seus mistérios,
                                  recusa a pressa!

Também não queira instar prônubo ânimo
a quem não quer calar a juventude.
Quem, do amor, extrair a plenitude
terá viço maior e a longo prazo
                                  será magnânimo.

Outrora, bom menino, a teimosia
insulou, neste peito, amor descrido.
E, tão logo acabou, fui convencido
de que melhor ficava co as lembranças
                                  que co a apatia.

Agora vá, menino! E, embora manco,
procura, neste amor, rejubilar-te.
Viver de amor requer invento e arte;
e, por Deus!, que aptidão não falte, pois
                                  o Amor é franco!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

As Perseidas

Percorrem rápidas o espaço-tempo
as famosas Perseidas elegantes
Imóveis contemplando o universo
permanecem anônimos humanos

Observando os pombos na cidade

pombos tentam voo
carros nem desviam
um pombo infla o peito
em meio ao infortúnio

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Elegia II

Esta elegia foi inspirada no amor, nos meus estudos e na quinta das Elegias Romanas, de Goethe.

II

Cá, nesta terra, eu sigo o bom preceito:
a Antiguidade dita a experiência,
e o Moderno corrige os velhos erros.
Cá, tão bem me aprofundo na ciência
que contemplo, nas artes que produzo,
e na filosofia que pratico.
Aqui, em meio os bosques e rochedos,
Amor me comunica os seus mistérios.

É cá, neste lugar, que as diferenças
somem: não há Antigo, e nem Moderno;
aqui o espírito é também matéria.
Todos desejam que o Amor se faça
manifesto, entre todos, nesta aldeia.

Não me importa se o Mundo é imperfeito,
mas sim se aprovo nele os bons momentos.
Eu passo o dia junto à minha amiga.
Ficamos contemplando o pôr-do-sol,
e nas horas noturnas nós brincamos,
ousando conhecer o que é oculto
no corpo. Seus mistérios, orientados
pelo Amor, manifestam-se no leito.

A humanidade um dia entenderá
que ao corpo não se deve impor limites.
Eu hoje asserto com clareza grande
que metade do homem que hoje sou
eu devo ao mundo que se encontra aí...
A outra metade eu devo ao meu amor.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Soneto 7

Monarca, a borboleta, vai mudando,
queixando-se da vida passageira...
E em queixumes não vive a vida inteira
o homem a sua morte tateando?

Não vês que a vida é jogo desertando
constantemente a sorte, de maneira
que a Parca deusa, a vida costumeira
bordando, o fado vai nos destinando?

A morte, meus irmãos, é coisa certa,
quer para o valoroso ou parco humano,
ou para a consciência que em nós fez-se.

Portanto, a vida nossa que deserta
é do comum efeito do ano e ano
que passa pela gente como a messe.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Soneto 6

Estava Leda, mansa, um triste dia
banhando suas pernas numa fonte;
o olhar ia sumindo no horizonte
quando avista ave bela – um cisne via!

A jovem Leda o cisne seduzia,
e aos poucos Leda foi curvando a fronte.
A serpe, que matou a Laocoonte,
consumou num prazer que não soía.

Estranho o ato da ave manifesto,
mas era, o cisne, Júpiter fingido,
num outro ato seu mui desonesto.

Das ninfas sedutor já conhecido,
agora tinha Leda num só gesto
e, co ela, filho Pólux dividido.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Vilancetes 8, 9 e 10

a este mote de Mello:
Faz escuro, mas eu canto
porque é preciso plantar.

VOLTAS
A noite vai se afastando
e, co ela, todo o labor.
A moça, de negra cor,
eis, surge, cantarolando.
E ela, assi, vai me encantando
à luz do seu claro olhar,
e a voz canora a cantar.

Andando com curtos passos;
levando à cabeça um pote;
cantando, cantando um mote!
Tão rara nestes espaços...
Tão rara que corta os laços
de quem tenta lhe tocar;
mais vale quem trabalhar.

Assi vai a camponesa
nestas noites de Verão.
Dona do meu coração,
onde encontro mor pureza.
Mas em mim só há vileza,
e ela só quer trabalhar
porque é preciso plantar.
(Vilancete 8, Vilancetes)

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a este mote meu:
Lá se vai a camponesa
co o gado todo a pascer:
sem vê-la eu não sei viver.

VOLTAS
Os verdes campos da lida
são belos, são florescidos;
são todos eles pascidos
por brutos cheios de vida;
são frutos da amada tida,
de Amor, que eu vi renascer:
sem vê-la eu não sei viver.

Cantando se vai a amante
entre os campos e arvoredos.
Ecoa a voz, cantos ledos,
enquanto o sol, seu semblante.
Ai! Este amor delirante
que em mim eu vi florescer:
sem vê-la, não sei viver.
(Vilancete 9, Vilancetes)

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a este mote meu:
Lá se vai a moça negra,
co o triste lenço na mão:
é dona do meu c'ração.

VOLTAS
Vai, à beira de um regato,
chorando na triste fonte;
vai na serra, vai no monte,
chorando seu triste fato.
Vai levando um choro lato
para mais que tem na mão:
ser dona do meu c’ração.

Tem às mãos, também, seu lenço,
que afagam o seu espanto;
não quis, eu, roubar-lhe o manto:
Fortuna tem meu assenso.
E sendo um deus que eu não venço,
Amor não pode dar, não:
ser dona do meu c’ração.
(Vilancete 10, Vilancetes)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Epigrama 1

Que pode o homem face à Natureza
Se só pode a Natura amedrontar?
Os homens, no infinito, têm firmeza;
No mar, a imensidão; na vida, o mar!

domingo, 26 de maio de 2013

Soneto 5

Enquanto tive amor minha alma teve
outra alma para amar e ser amada.
Que tens, Amor, p'ra dar, se grã-espada
cortou o amor que tive, raro e breve?

Não vejo teu semblante, cor da neve;
nem toco tua pele orvalhada.
Olhai como que a vida a mim traz nada,
e a vós Fortuna e Glória ela deve.

Eu temo mais vencer a ser vencido
por uma causa nobre que destoa
um rei que arma e coroa tem vestido.

Mas triste é fim de toda gente boa,
pois todo aquele ser por loa erguido
por belo vem a ter só a coroa.

sábado, 4 de maio de 2013

Elegia I

Acabo de escrever esta elegia onde vejo, em boa medida, uma síntese das minhas leituras de Virgílio (Bucólicas), Horácio (Odes), Gonzaga (Marília de Dirceu) e Goethe (Elegias Romanas). Ademais, muitas experiências pessoais ajudaram-me a idealizar o local do poema.

I

É-me difícil retornar à terra
de onde a vida modesta me foi dada,
pois não se agradarão os meus parentes
em saber que troquei-os pelo mundo.
No entanto, nesta terra há perdurado
pães, vinho, café, frutas e oliveiras,
bem como os animais que nela brincam.
Ó, como tolo eu fui em não ter visto
que assim como perdura o alimento
nesta terra, também aqui perdura
do amor dos brutos ao amor dos homens!
E, se algum lema houver para tal terra,
que seja "liberdade, paz e amor".

terça-feira, 12 de março de 2013

Quarto soneto, após as leituras de Mênon e Górgias


– De ti, ó Sócrates, não cai um pranto
mesmo quando estás prestes a ser morto!
Não te causa algum dano ou desconforto
saberes que teus filhos choram tanto?

– Dos fatos temo mais causar espanto,
no povo dessa Atenas, que o conforto
levou ao meu comportamento absorto!
E hoje sábio sou, e triste santo...

– É triste o vosso olhar perante a gente,
com mais de dous mil anos concebidos
que nunca realizaram-se na vida!

– Mas como eu poderia ser contente,
se os homens, na indolência, têm vividos
as causas da injustiça instituída?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

vilancete 7

Ah! como me dói saber
que o tempo amor teu levou,
mas em mim, Amor ficou.

Tu deste, Amor, sofrimento
que a senhora é testemunha
da distância que se punha
por sobre todo o alento!
Mal vi o contentamento,
pois que o tempo ele levou,
mas em mim, Amor ficou.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Outro soneto mais


Os lindos arvoredos desta terra
me dão contentamento a cada dia;
me enchem de prazer e de alegria;
me dão amena calma nesta guerra.

Me fazem homem forte nesta serra;
me trazem no inverno a neve fria;
me tiram da cidade a nostalgia
que o campo num momento vivo encerra.

Em mim toma uma guerra que desvela
uns vivos sentimentos, trago à alma,
pelo amor que vivi todo ao teu lado.

E cansado de ser tristeza e calma,
mais uma vez me foge a bela Estrela,
e aceito, humildemente, o triste fado.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

vilancete 6


Calada a certeza,
a vida é um sonho
num mundo tristonho

Se foi a esperança,
por obra da arte
que outrora foi parte
da minha bonança.
Agora a mudança
me faz tão tristonho...
A vida é um sonho?

O tempo tomou
as forças, o abrigo...
levou um amigo
que triste chorou...
Pois Deus ordenou:
“com vida vos ponho
num mundo tristonho!”

domingo, 30 de setembro de 2012

dois sonetos

Já havia publicado estes dois sonetos em postagens anteriores, mas é sempre bom postar novamente...

Soneto bucólico...
O campo esverdeado, a bela serra
e a imensidão das águas que é coberta
pelo céu estrelado, coisa aberta,
que dá sentido à vida e à nossa Terra...

A neve mostra o claro (o céu não erra!),
mesmo o infinito escuro que se oferta,
tem consigo a brancura bem desperta
que o mundo em paz converte e por quem berra!

Ditosas águas vão, aqui, passando
enquanto eu vou pedindo a primavera
para, co ela, colher frutos e flores...

Que harmonioso aroma que nascera
da benigna união, da qual estando
mudado os tempos, mudam-se os amores!


Soneto em homenagem à Dinamene, amante de Camões...
Tua alma foi partindo em despedida,
a chuva e o trovão te condenando,
a maré, que revolta, te abraçando,
fez trágico o destino teu em vida.

Tua sina em silêncio sucumbida,
fez com que o mar revolto, te levando,
foste a última casa em vida estando;
e ao vate foste a morte mais dorida!

Se acaso, Dinamene, recebeste
Camões no etéreo assento onde subiste,
feliz estou por vós e vosso amante.

Mas se o tal Paraíso não existe,
e nem estás co o Grande Rei celeste,
então durma em silêncio mui constante!

sábado, 22 de setembro de 2012

alguns vilancetes

a este mote meu:
Bardo. Vives pesando argumentos;
concluíste na balança
que "enquanto há vida, há 'sperança"?

VOLTA
Têmis. Este verso tem a estima
de que esperança é ter vida:
que será dela partida,
se a vida assim se não rima?
Pois a esperança é que anima:
sem ela não há mudança;
logo, se há vida, há esp’rança!




a este mote meu:
No desconcerto do mundo
resta ainda uma esperança
que não é a temperança

VOLTAS
Perdi a minha certeza
por conselho da Mentira
que, tirando a minha lira,
perdia o mundo a beleza.
Amor só traz mais tristeza...
E assim, cantando a mudança,
mo fugia a Temperança.

Foi-A entregue a minha sorte,
para todo o meu espanto,
pois de tom mudava o canto
sem que a Virtude conforte.
Vem a Esperança co a Morte;
desce ao mundo uma esperança:
Têmis, vinga a Temperança!



a este mote meu:
Foi a Pureza sumida
por desejo da maldade,
que já não tem mais Idade...

VOLTAS
Da Terra foste apartada
Tu, última deusa perfeita,
e lá nos céus foste eleita
a Pureza consagrada,
porque à Terra foi fadada
o desejo da maldade,
e cá ‘stamos nessa Idade.

Vives por entre as estrelas,
pois em mundo sem postura
é sorte ver gente pura
(quem dirá tornar a vê-las!);
as virgens são todas belas!
Astreia, vem sem maldade,
retirar-nos dessa Idade!



a este mote alheio:
Atirei o pau no gato,
mas o gato não morreu...
Ai!... que berro o gato deu!

VOLTAS
O gato estava achegado
debaixo da saia dela;
me viu! Pulou a janela
qual gato atemorizado!
Mas tendo ao canil pulado,
veio um cão e lho mordeu,
mas o gato não morreu...

Para a moça impressionar,
lá me fui salvar o gato...
Meti-me num grande mato
para um galho lá quebrar;
atirei o pau no ar,
mas no gato é que bateu!
Ai!... que berro o gato deu!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Epigramas

Epigrama é um poema breve, mas engenhoso... E, a partir de Marcial, habituaram-se os poetas a escreverem epigramas satíricos.

Abaixo alguns epigramas que escrevi...

Epigrama erótico e amoroso...

Quedamo-nos no estado mais modesto,
Aqui, nós dois, amantes sublimados!
Eu saio bravo, altivo e muito lesto;
Tu sais tensa, mas ambos saciados:
É que uma alma transpõe-se noutra envolta,
Livre como o amor; como a dança, solta...


Epigramas satíricos...

Ó Cáspio, há mais versos p’ra escrever
Aí, na densidade do teu Mar?
Repousas na terra onde os lobos são
Homens! E tu te afliges poluído...
Mas dura pouco, ó Cáspio, volverás
Na amplidão hircânia onde o Homem jaz.



Teu orifício é tão piloso, ó César,
Que a borra gruda enquanto tu defecas!



Ó meu caro Reinaldo, te detesto,
pois o teu azedume não está
só no nome... também nós encontramos
na baba que da tua boca sai!
Estás para gastar toda a saliva
azeda que te resta ainda, Azedo!
Mas escuta este meu conselho amigo:
Quem muito fala tem pouco proveito...



Cuida que é um filósofo... besteira!
Ser bicha não é norma, Seu Olavo...
A tua boca velha cospe asneira
contra o ateu, bichinha, antigo escravo!
Penso que tu, Olavo, violentado
foste, por um graúdo travesti
de membro monstruoso, e embasbacado
tu quedaste co’a boca embaixo, ali...
Teu nome fama leva, ó Seu Carvalho,
do dia em que chupaste o grão-caralho!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Outro soneto...


À Dinamene, amante que Camões perdeu, sem despedida, no famoso naufrágio, e dedicou-lhe alguns dos melhores sonetos da língua portuguesa.

Tua alma foi partindo em despedida,
a chuva e o trovão te condenando,
a maré, que revolta, te abraçando,
fez trágico o destino teu em vida.

Tua sina em silêncio sucumbida,
fez com que o mar revolto, te levando,
fosse a última casa em vida estando;
e ao vate foste a morte mais dorida!

Se acaso, Dinamene, recebeste
Camões no etéreo assento onde subiste,
feliz estou por vós e vosso amante.

Mas se o tal Paraíso não existe,
e nem estás com Deus, o Rei celeste,*
então durma em silêncio mui constante!

* variação do 13° verso: e nem estás co o Grande Rei celeste

terça-feira, 14 de agosto de 2012

vilancete cômico

Há alguns dias atrás eu imaginei alguém me pedindo para que improvisasse um vilancete tendo por mote algo próximo daquela velha cantiga, "Atirei o pau no gato", mas bem menos violenta do que aquela.

Este vilancete é um vilancete perfeito (o último verso do mote repete no final de cada volta) e foi escrito em redondilhas maiores (7 sílabas poéticas).


a este moto alheio:
Atirei o pau no gato,
mas o gato não morreu...
Ai! Que berro o gato deu!

VOLTAS
O gato estava achegado
debaixo da saia dela;
me viu! Pulou a janela
qual gato atemorizado!
E tendo ao canil pulado,
veio um cão e lho mordeu;
Ai! Que berro o gato deu!

Para a moça impressionar
lá me fui salvar o gato...
Meti-me num grande mato
para um galho lá quebrar;
atirei o pau no ar,
mas no gato é que bateu!
Ai! Que berro o gato deu!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Um soneto...

O campo esverdeado, a bela serra
e a imensidão das águas que é coberta
pelo céu estrelado, coisa aberta,
que dá sentido à vida e à nossa Terra...

A neve mostra o claro (o céu não erra!),
mesmo o infinito escuro, que se oferta,
tem consigo a brancura bem desperta
que o mundo em paz converte e por quem berra!

Ditosas águas vão, aqui, passando
enquanto eu vou pedindo a primavera
para, co ela, colher frutos e flores...

Que harmonioso aroma que nascera
da benigna união, da qual estando
mudado os tempos, mudam-se os amores!